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da estética da heroína

man at work

a oficina da audiência zero que, devagar, vai criando todas as estruturas necessárias para uma sede catita.

só trabalhando todos os dias se compreende algumas idiossincrasias do espantoso mundo da construção civil: o rádio, os piropos, o lápis na orelha, o metro no bolso de trás e por aí fora. não são manias sem sentido, são formas práticas para não deprimir, cada qual com um objectivo próprio. tantos anos com os cornos enfiados em códigos e afinal tenho é jeito para trolha numa velha tradição familiar. o tonecas deve estar orgulhoso.

11 de Novembro de 1969. Os tempos eram, certamente, outros. Vila Franca era – ela também – outra. Inspirados pela forte cultura tauromáquica da época, um grupo de homens cria uma tertúlia com o objectivo único de pensar e discutir o mundo dos toiros à mesa. Era a afirmação da aficción que manifestava a sua vontade de contribuir para a festa brava. Um mundo que não se discute não cresce e com dificuldade sobrevive.

40 anos passados, a Tertúlia Cirófila mantém a sua vontade de discutir esse esteio da cultura da terra que a viu nascer e que lhe deu o nome. Amigos dos toiros, é certo, mas ainda mais amigos de Vila Franca e das suas singularidades. E é na comemoração do seu quadragésimo aniversário que se percebe que há uma necessidade instintiva de continuar, pois à mesa se sentam três gerações que simbolizam a persistência do passado e a esperança no futuro.

Mas, o mundo dos toiros não se discute em grupos fechados. Por isso, seguindo a sua tradição de abertura a todo o mundo taurino, e não só, a Cirófila teve o prazer de comemorar esta data redonda na companhia de duas figuras de enorme relevância para os toiros e para Vila Franca. Mário Coelho e Ricardo Levezinho foram, nesta noite, um símbolo vivo daquilo que é o passado luminoso de uma cultura e o futuro corajoso do espectáculo, cada um representando a sua fatia do imenso bolo que é o mundo taurino. Reviveu-se a  glória na grandiloquência de Mário Coelho e discutiu-se o presente com os olhos no futuro nas palavras convictas de Ricardo Levezinho.

11 de Novembro de 2009 não assinala apenas uma data. É também um marco para a frente desta tertúlia que, hoje sem um espaço físico, se mantém viva e com vontade de viver e que nesta fase da sua existência contou com o acolhimento sincero e honroso da Tertúlia “O Pampilho” e do seu anfitrião Rui Lopes.

E em memória dos que nos deixaram, a Cirófila contiunuará com o espírito do tempo discutindo-se e discutindo umas quaisquer “cinco en punto de la tarde”.

 

 

 

Texto publicado na Vida Ribatejana

do impulso

nunca conseguiria criar um blog onde os textos fossem todos, ou em grande parte, calculados e revistos, criados antecipadamente e só depois publicados. na blogosfera, como na vida, sou muito mais morphine do que treat her right.

a minha confissão pública de ter voltado a utilizar suchard express levantou uma polémica muito grande que não consegui prever. em várias redes sociais, caixas de comentários e até nalguns media (os folhetos de supermercado), a questão foi debatida e a celeuma criada faz-me escrever um pequeno apontamento histórico sobre esta delicada matéria.

enquanto criança fui habituado ao universo espanhol pela sua forte presença no mercado português. durante anos, no meu leitinho, só entrava cola cao. desde os atractivos bonecos até à facilidade na dissolução, tudo no cola cao era aparentemente perfeito. o sabor sempre era melhor que o do pavoroso ovomaltine. ainda tenho pesadelos com este nome… ovomaltine.

ambicionei a minha vida toda por nesquik e, provavelmente, só tive acesso a este objecto da coolness infantil por 2 ou 3 vezes. do cola cao mudámos logo para o suchard express. aos cinco anos eu já dizia com uma extraordinária dicção “suchard express”. na escola não comentava este assunto. nos supermercados pasmava em frente às caixinhas amarelas de formato sui generis com um elegante coelho como imagem de marca. e a palhinha do anúncio. grande. um sonho.

já muito mais tarde, na pré-adolescência, surgiram os cereais nesquik. a minha primeira conquista. pouco depois consegui convencer o fornecedor de pequenos-almoços cá de casa a realizar a tão desejada compra. durante meses vivi num deboche alimentar. fui promíscuo. cheguei mesmo a deitar korn flakes em leite com chocolate e açúcar. num número claramente mais arriscado uma colega de escola ainda lhe juntou mel. foram os loucos anos noventa para o leite com chocolate.

o vício no nesquik acabou por me levar ao fundo dos fundos. era tempo de parar. a limpeza foi feita com ovomaltine. tinha de ser, não havia outra solução. e mais tarde, numa das idas a badajoz, descobrimos outro cacao espanhol de marca própria da cadeia pryca. as embalagens de 5 kg’s e um preço imbatível não deixavam dúvidas: esta seria a grande mudança. e ao longo de mais de uma década, apesar das dificuldades de dissolução no leite e uma quase impossibilidade de o beber frio por motivos estéticos, este produto sem nome, sem imagem, sem carisma e sabor, ensinou-me a humildade e o auto-controlo, coisas que foram destruídas pelo deslumbre e pela ilusão de um mundo melhor com nesquik.

volto, então, ao suchard express, saboreando a elegância de um produto com classe, sóbrio. posso provar todos os outros na mesma. hoje estou limpo e sei o que é melhor para mim.

2009 comeback special

anos depois, talvez uns 10, voltei ao suchard express. estamos todos de parabéns.

hibernação

nunca compreendi por que é que as pessoas deprimem com a invernia. não há nada mais confortável para o espírito, não há melhor bálsamo para o sossego que o tempo cinzento. como costuma dizer o filipe nunes vicente, é a altura em que nos é devolvida uma certa civilidade, longe daquela gritaria do verão, das hormonas adolescentes e da necessidade pateta da rua. eu insisto: por favor, não me incomodem pois estou muito bem em casa, feliz da vida. não é misantropia, é bem-estar.

a elegância do dinheiro

um homem rico, muito rico, não fica em hotéis, compra casas. isso dá-lhe o privilégio de poder dizer sempre que chega a algum lado: “enfim, em casa”. o poder do dinheiro está em criar mais e melhores circunstâncias para o conforto e não no capricho exibicionista. o exibicionismo é uma característica dos pretensiosos.

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uma dúvida

afinal, quem é que tramou roger rabbit? já tive mais certezas do que as que tenho hoje e isso não é necessariamente mau.

tudo aquilo que parece

lisboa já não amanhece como dantes. nem os amantes nos bares, nem os navegantes. já poucos chegam ao cais e as ruas estão tristes e vazias. sobram apenas alguns sociopatas óbvios e bêbedos e meia dúzia de intelectuais de circunstância. a caminho da outra margem vejo outros em sentido contrário, noutro amanhecer. e todos os amanheceres são cansados e não mais esperançados. já em casa, a manhã nasce timidamente e nem o cigarro me sabe bem. nunca um céu foi tão banal. seria frustrante morrer numa manhã sem esplendor.

breve pausa para lamber feridas

alcova

bond

de um modo geral, o homem é corrompido por duas coisas: o dinheiro e o sexo. o problema é que o sexo não é matéria de crime num acto de corrupção. o sexo nunca foi encarado como uma fraqueza que mexe com o carácter dos homens e que, como tal, influencia as suas decisões. é, por isso, a forma mais segura de corromper o poder. não é por acaso que no futebol os árbitros são levados aos braços de mulheres dispostas a satisfazer os seus mais profundos desejos em troca de outros favores, ou que os inimigos de james bond enviem belas mulheres para o obrigar a cometer erros. na cama resolve-se muita coisa, como diria o meu amigo a.r..

um cliché

vi isto acontecer dezenas de vezes: duas pessoas acabarem uma relação e os amigos tentarem atacar o espaço deixado em falta. tentar ou concretizar uma investida sobre a ex-namorada ou mulher de um amigo não é tanto um problema moral, mas antes um cliché barato.

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