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Archive for Abril, 2012

the national

“Vamos! Despacha-te que é tarde.” Visto o casaco à pressa e mal tenho tempo de verificar se está tudo bem, ao espelho. Sempre bem parecido, banho tomado, ressaca a desaparecer e o estômago vazio. Saímos de Temple e subimos em direcção a norte. “Comemos pelo caminho. Despacha-te que ainda temos de passar em Eldonian para fazer as apostas.” Às vezes o meu pai ainda acha que eu tenho 12 anos, no tempo em que corria atrás dele pelas ruas da cidade, sempre com os seus planos de fim-de-semana, tudo muito bem montado. Uma correria. Sempre a correr. Menos depois do almoço quando passeávamos calmamente e ele me contava da vez que tinha falado com o Ringo e que lhe parecera um tipo impecável, ou então da vez em que o Prince Charles lhe elogiou o cavalo. “O Arizona Kid foi o melhor cavalo que correu o National.” Sempre as mesmas histórias, o mesmo revivalismo, os olhos vidrados como quem já só olha para lado algum. Assim que chegarmos a Aintree vai garantir-me que temos vencedor. Como sempre, vamos perder.

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mexicola

acordo na fronteira. entre os dentes, uma mistura de pó e tequilla. os dedos sem os anéis. acordo como um cão que agoniza no asfalto. levanto-me e decido regressar a chicago. tudo ficará bem, em chicago.

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arizona

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heroína

de boas recordações está o inferno cheio. recordações doseadas para dentro de uma colher, aquecidas. as boas recordações são uma desculpa para não seguir em frente e, por isso, são um vício injectável. é preciso acabar com a memória.

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que dia foi este noutros anos? se ao menos me lembrasse que dia foi. vejo-lhe a forma nas nuvens e no vento frio; as searas angustiadas, o coração apertado, a estrada a estilhaçar, isolada. é uma aflição sem causa, adolescente. que este desassossego tem qualquer coisa de bom. lembra-me um sonho lindo, quase acabado.

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desde pequeno que, depois dos talheres cruzados, os acompanhava à vila. ao deixar o monte, ficava a pensar se, na minha ausência, não aconteceriam coisas mágicas, acontecimentos invulgares. a tarde que nasce lenta depois do almoço, premeia sempre os que decidem ficar, os que se deixam estar, sonolentos, numa serenidade natural. na vila, o tempo nunca é natural. à frente da igreja, dois ou três cafés, com os toldos patrocinados envelhecidos, as montras gradeadas, a solidão do progresso desiludido e uma angústia inerte, ansiosa pela segunda-feira. porém, desta vez fiquei, e do sossego digestivo surgiu a música a iluminar o montado e o pequeno lagar, arrancando a alegria das cadeiras de verga, numa valsa livre e solta. os animais brincavam como crianças e os velhos sorriam empolgados com a magia da dança. no caminho de volta, já melancólico, fiquei a ver a seara passar e desaparecer, seca e infértil. acabei por adormecer com a trovoada, ainda com lábios de vinho, enquanto no banco da frente eles ainda falavam da rotina da semana anterior. um pouco mais tarde, acordei com o ruidoso tabuleiro da ponte e vi o domingo pesar e arrastar-se, negro, sobre a cidade. voltei para casa, tonto.

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