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Archive for Janeiro, 2010

O Porto tem memória de si mesmo como uma cidade liberal, forte, autónoma e leal. Pelas ruas da cidade imperam em tabuletas verdes o nome dos revoltosos republicanos que a 31 de Janeiro de 1910 iniciavam com notável fracasso a luta contra a monarquia centralista. Os portuenses habituaram-se ao estatuto de seres livres, cultos e corajosos. Mas a História não promove automaticamente estas características sem que nada seja feito pelos próprios. Longe do carisma dos seus mais lendários representantes, a cidade é hoje uma montra de vaidosos, pseudo-intelectuais, vigaristas, alcoólicos, wannabe’s, convencidos e comodistas. Sem qualquer hipótese de competitividade e com um défice de serviços empregadores, em comparação com a capital da república, a cidade vê os seus filhos partirem convencidos de que o seu mundo pequeno é demasiado provinciano e nada de novo lhes pode oferecer. São filhos que já não olham as placas, as estátuas e os bustos nem tampouco querem saber. A noite tornou-se no maior índice de expressão cultural e é aquilo que estiver mais em voga que orienta as movimentações culturais e sociais. Os bares perderam convívio e ganharam vício. As livrarias e discotecas perderam clientes interessados e ganharam frutos da cultura de internet, da cultura mediática e efémera. Os cinemas desapareceram e a indústria definha a cada dia que passa. Os mais novos carregam computadores e outras engenhocas e, alheados de tudo, já nem ouvem o barulho das ruas da cidade de que falam sempre com tanto orgulho. Procuram a estética e não o conteúdo. Perdeu-se o valor e a cultura. Perdeu-se liberdade. O que festejam então os portuenses se cada vez mais fazem menos pelo seu estatuto e pelo honroso nome da cidade?

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rumba de sábado à noite

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pills & skills

Encontro-me num estado abjecto de procrastinação há mais de 4 anos. É este estado que me leva a escrever coisas fascinantes e, melhor do que isso, a pensar sobre elas.

Estava eu muito bem a procrastinar sossegadinho na minha cadeira da office center que eu julgava ser boa, mas que não é, quando me deparo com um ritual pagão que foi introduzido no meu quotidiano pela minha mãe com o intuito de eu ser alguém na vida, isto já vai para lá de 10 anos. Com efeito, consiste o dito ritual em enfiar dois comprimidos depois do pequeno-almoço com o supra objectivo de adquirir capacidades que pelos vistos ela julga que eu não tenho, entre elas não procrastinar.

Os comprimidos têm duas funções, sendo que a primeira é produzir efeitos no futuro para atenuar determinada maleita e a segunda produzir efeitos no futuro para que se possam produzir efeitos no futuro sem maleitas. Ora, isto no fundo tem algo de religioso. E é por isso que a minha relação com os comprimidos é muito semelhante à que tenho com Deus, não só por ter sido a minha mãe a introduzi-los à bruta, como pelo facto do meu cepticismo ser derrubado por uma precaução mística: “é melhor acreditar que sim não vá o diabo tecê-las”. No final ninguém se chateia e ficamos todos amigos.

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deserto

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jano e o deserto

janeiro sempre foi um mês deserto. e tal como o deserto, janeiro é profícuo em criar ansiedade. longo, lento, seco e com um horizonte que parece não se alterar com o nascer dos dias. o mês que se plantou na minha janela trouxe de novo o melro preto, mas poucas mais novidades. só silêncio e inquietação. só agora compreendo o carnaval.

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all that gipsy

O António Branco Almeida lembra, e muito bem, o centenário de Django Reinhardt. Sou pouco biográfico e, por isso, remeterei para o seu post qualquer informação relativa ao percurso do gipsy. A minha relação com a música é mais intuitiva, sendo que o resto só vem preencher as certezas que já tenho, muitas vezes de forma demasiado rebuscada, mas a vida é assim mesmo.

Django é uma das maiores referências da música francófona, nomeadamente, como dizem os comentadores de futebol, do jazz e suas variantes. Acontece que o Django nem sempre é apreciado com a devida competência. Reparem que estamos a falar de um homem que durante uma parte significativa da sua vida artística tocou com apenas dois dedos na mão esquerda – a que usava no braço da guitarra. Não deve ser fácil, apesar da história estar cheia destes pequenos handicaps. Beethoven ficou surdo, o baterista dos Def Leppard ficou sem um bracinho, José Cid “cego de uma vista” e Jorge Palma já gravou sóbrio. É claro que nenhuma destas situações constituiu um barreira terminal mas sim um desafio (estou pronto para ser entrevistado pelo Daniel Oliveira ou pela Marta Leite Castro) e Django passou a usar apenas dois dedos (o fura-bolos e o pai de todos) tirando proveito do seu virtuosismo para continuar a criar círculos harmónico-melódicos.

Porém, a sua descendência, à excepção de Didier Lockwood (sim, por causa do Grappelli, não me cheateiem), tendeu a interpretar a obra de Reinhardt como um poço de virtuosismo e tornaram-se chatos e repetitivos. Não conseguiram compreender que, como em tudo na vida, o virtuosismo é apenas um meio e não um fim; é um instrumento para chegar a determinado resultado de forma mais eficaz e consistente e não o resultado em si mesmo. Seria da mais elementar justiça relembrar isso mesmo no ano do seu centenário.

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