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Posts Tagged ‘singularidades’

filosofia

obrigado, you sweet devil, you

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A fronteira entre a auto-comiseração e o auto-sarcasmo é muito curta. Para fora parece sempre que nos estamos a queixar, quando na verdade estamos a expurgar. A expressão intimista que adopto é, nesse sentido, a contemplação de uma beleza em que, na realidade, já não me sinto capaz de acreditar – a minha impossibilidade técnica ou o que está por trás desse auto-sarcasmo diário. Tenho, hoje, a estrutura mental de um cínico e Avalon é como uma desintoxicação, antes que seja tarde demais.

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teenage riot

Antes de morrer de tédio ou do amor, que é uma coisa que se dá muito em pessoas parvas, queria aqui deixar um testemunho importante: a melhor coisa do mundo são os adolescentes. Não há nada como ver um adolescente crescer, autodeterminar-se glosando  as novas linguagens, adaptando-se e criando a sua personalidade a partir do mundo. Mas só quando o deixam. Ninguém tem o direito de pensar por ninguém, principalmente por um adolescente. As consequências são uma das partes belas dessa existência.

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After analyzing reams of data from earlier studies, the UBC team found that WEIRD people reacted differently from others in experiment after experiment involving measures of fairness, anti-social punishment and co-operation, as well as visual illusions and questions of individualism and conformity.

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de agosto

No dia que lhe arranjaram para celebrar o seu breve regresso a casa, o emigrante desabafa. O luxo inicial que traz lá de fora leva-o a elogiar esse mundo evoluído e progressista, tão distante de um Portugal atrasado e conservador. Vocês aqui, sempre na mesma desgraça. Mas o almoço vai longo, o sol já queima e o cheiro a casa deixa-o melancólico, acabando por contar como a vida lá é difícil, como há impostos e taxas para tudo, como as pessoas se distanciam dos outros e até de si mesmas, como não há nada como casa. O emigrante estereotipado vs. o jovem qualificado que parte à descoberta do mundo e se vê agora confrontado com o paradoxo da diferença, que se vê a braços com um sentimento estranho de saudade porque nunca compreendeu que noutro lugar nada será igual. E isso não é necessariamente bom. Como diria Caeiro, “Eu sou do tamanho daquilo que vejo e não do da minha altura”.

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maradona

Maradona bem poderia pedir à Argentina que não chore por ele, que a Argentina choraria à mesma por Maradona. A culpa não é dele.”

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A outra margem

Sentado para almoçar fora de horas, olho em volta as outras mesas e nelas pousados tranquilamente estão os corpos de pessoas que não se importam. Usam bonés foleiros, falam sem contenção, comem com as mãos, riem alarve e harmoniosamente consigo mesmas.

Gostava de ter nascido na margem sul e ter aprendido a viver sem o complexo grave da civilização,  sem o compromisso com a inutilidade da etiqueta e sem a necessidade da aparência. Há pouca naturalidade na civilidade.

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Apesar da estrutura mental conservadora, nas relações pessoais sou quase neoliberal. Encarar as relações como um negócio parece-me ser um bom princípio para a manutenção do carácter e da sanidade. Se não houver uma pequena relação sinalagmática julgo não ser possível continuar. Não é interesse, é convergência de vontades. É como se estabelecêssemos uma sociedade com um amigo, ou celebrássemos contrato com uma namorada. Não devemos insistir quando o negócio não ata nem desata, quando há hesitação ou dúvida. Podemos estar a perder outros negócios em que há total harmonia. Arrisca-se, mas conquista-se mais solidez.

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pés na terra

A função do optimista é disfarçar ou esconder a realidade. Por sua vez, cabe ao pessimista dar-lhe um tom negro. A diferença entre um e outro é que o segundo refere-se sempre à realidade e o primeiro à ilusão. Ninguém gosta dos pessimistas. Claro.

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somos aquilo que vemos e ouvimos. e mesmo quando deturpamos, somos aquilo que mentimos. neste capítulo, o politicamente correcto não é senão uma obediência à conveniência e isso resulta na mentira. as zonas cinzentas são uma invenção da conveniência.

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ecce homo

Por que sou um génio?

Todas as respostas a todas as perguntas precisam de um enquadramento. Será então necessário explicar que, antes de tudo, até mesmo do verbo, deveria ser proibído deixar Alexandre Frazão produzir sons perto de outros cidadãos que tentam apresentar o seu trabalho. Pois que o mundo desaparece e sobra Frazão. Uma pena, visto que Água, o disco que Carlos Martins apresentou na Culturgest na passada Sexta-feira é – como dizer isto sem ser lamechas? – esplendoroso. E estava lá Sassetti. Acontece que perto de Frazão tudo o resto é mais pequeno e irrelevante, não por defeito dos outros mas por excesso de qualidade daquele homem cujo instrumento nem melodias produz, teoricamente.

Foi, portanto, por Frazão que comecei a aplaudir em delírio puro. Martins também foi monumental. E já depois da Água veio uma adivinha sob a tentação de um prémio em encore. A questão era: “que tema serve de base a este próximo arranjo? É um tema que marca um Portugal de que nos envergonhamos e um acontecimento de há 44 anos”.

Ouvi. Esperei. Pensei. E soube. E soube porque sei, porque fiz por isso durante estes anos todos, porque ganhei essa sensibilidade, porque tenho a particularidade de notar a diferença entre qualquer instrumento, porque conheço os instrumentos e as notas, porque toco alguns deles, porque os canto de manhã à noite. Não se é melómano por obra e graça do espírito santo, nem por se ser moderno. A música nova não é boa por ser nova, é nova por ser boa. Por isso Bach pode ser uma novidade a qualquer altura, Zeppelin pode ser rock de amanhã e Hendrix ser daqui a 300 anos, ao passo que um artista recente pode ter um toque de mofo por não revelar qualidade criativa ou inovação, sendo que essa inovação não está na produção, stricto senso,  mas na sua inteligência e sensibilidade. Pelo menos para o melómano não deve ser assim. Que o seja para o escutador, para o senhor ouvinte que nunca será melómano por mais que ache que sim, por obra e graça do espírito santo.

Daí o génio. Objectiva e subjectivamente um génio. Ah! E a música que servia de base a um arranjo denso comó raio era o Ele e Ela da Madalena Iglésias. Depois de dizer parece simples.

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Todos os movimentos artísticos surgem de uma necessidade, suponho. Quer dizer, é provável que nasçam de uma necessidade de exteriorização. Assim também foi com o rock’n’roll. Mas será que o rock deixou apenas uma pegada social devido à sua ousadia? Julgo que não. O rock dos anos 40 e 50 traz consigo uma característica fundamental da geração que o conduziu – o machismo charmoso e descarado. É claro que não é uma característica exclusiva ou original do rock’n’roll, mas sim dessa geração, ou melhor, desse tempo. Repare-se que até Vinicius de Moraes em “Samba da Benção” projectava a imagem da mulher como alguém que é só perdão em relação ao seu homem. Bonito! O que o rock fez foi potenciar essa realidade.

Compreendendo essas subtilezas do rocker compreende-se facilmente o homem moderno, esse género calculista e egocêntrico ao qual tenho o orgulho de pertencer.

O homem é machista por natureza. Acontece que aqui o machismo não é aquele que as feministas gostam de lhe atribuir (isso é ignorância, minhas senhoras, não é machismo). O machismo natural do homem é uma espécie de egocentrismo meets insegurança.

Senão, vejamos a cronologia da dor de corno rockeira e que está bem patente nas canções do Rei.

Tudo começa com uma confissão de amor adolescente: dá-me a tua mão, és loirinha e fofinha e vamos correr no parque. Nesta altura o rockeiro quer mostrar a sua sensibilidade para além daquele jeito aparentemente brutamontes. Ela acha piada e lá vai na cantiga do bandido. Depois vêm as grandes declarações, os passarinhos e o amor a explodir nos céus. Aleluia! O orgasmo antes dos preliminares, nos anos 50, era muito importante. E hoje ainda funciona. Mas, enfim.

Caidinha de todo, pelo beicinho e mais de 400 cafés e passeios à beira-rio depois, ela lá lhe concede o prazer de uma dança mais a sério. O rockeiro passa então a falar de prisão. Ela pensa que ele é um criminoso, mas no fundo o que ele quer dizer é que a tipa domesticou-o. O que não é inteiramente verdade.

Porém, o leão está adormecido e acaba por meter a pata na poça. Esta parte ele não revela nas canções, mas nós percebemos isso quando ele se arrasta atrás da sua senhora. Não precisa de ter pulado a cerca. O rocker é um tipo caprichoso e egocêntrico por isso a sua única preocupação são os seus problemas e se ela não aceitar isso e achar que também tem sentimentos ele faz cair o Carmo e a Trindade. É isso que temos de perceber porque é aí que está o âmago do rock e, por consequência, do patético homem moderno que não quer uma mulher para amar e partilhar e mais não sei o quê com que elas sonham que ele seja. O que ele quer é uma segunda mãe. Pobre menino, tem medo de ficar sozinho e que mais ninguém o ature, que é o mais provável porque ninguém está para aturar malucos.

Ele tratou-a mal e sabe disso, porque se não soubesse não estava a pedir desculpa à frente de milhões de pessoas e para a posteridade em 45 rotações. É aqui que ele se apercebe que não é mais do que os outros e começa a ter crises de identidade pelo que toca de enfiar comprimidos para aliviar a dor de existir. Estamos todos cheios de pena! Bem, pelo menos ela está porque acaba por regressar e ele, ainda mais violento, acaba de vez com a vida dos dois, que serão miseráveis para todo o sempre.

Se isto acontece hoje? Claro que sim. Ainda é pior porque, depois de se emanciparem, elas ficaram iguais: egocêntricas, caprichosas, alcoólicas e inseguras.

Como sair desta encruzilhada? Nem o Rei sabe.

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padrão

as mulheres são um ser paradoxal por natureza. é isso que faz delas eternas insatisfeitas.

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consequências

a nossa imagem da realidade pode ser um delírio. só conseguimos ter a certeza dela com a consequência dos factos. o problema é que quem não prova essa sua imagem ou percepção, quem não vê o resultado, acaba por viver sempre em delírio, em ilusão. não há muita solução para isso.

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sobre fernando pessoa muitas teorias foram desenvolvidas por causa dos seus heterónimos. muitos falaram nas alucinações por causa do consumo de ópio e álcool, outros das relações homossexuais que mantinha com os donos daquelas personalidades. a patetice não é, portanto, uma coisa de hoje, é doença que vem de longe. parece ser impossível para algumas pessoas que alguém tenha capacidade para criar e observar perspectivas diferentes. como se o mundo como o conhecemos fosse obrigatório.

em i’m not there, um dos vários “dylan’s”, julgo que arthur, aconselha à não criação. criar, segundo este, é um erro porque seremos sempre mal interpretados. por isso, para quê criar? para quê perder o tempo a criar se aparecerá sempre alguém que, não compreendendo, irá desprezar ou destruir teorizando sobre coisa que não está lá?

a única solução para o criador é que surja alguém com magnitude suficiente para convencer os escravos da razão. um marchand, por exemplo. lembro-me de um filme de woody allen em que um marchand interrogava os convidados de uma exposição sobre quem seria o verdadeiro artista? a resposta era ele mesmo, porque era ele que vendia os quadros e não o criador.

todos precisamos de um empurrãozinho. uns mais do que outros.

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tenho pavor dos clichés. tenho pavor de cair neles ou até mesmo de me tornar num. o cliché é uma espécie de pro forma para nos facilitar a vida e a comunicação. dizemos que adoramos crianças ou cinema, que o robert de niro é o nosso actor preferido e que também nos emocionamos. dizemos que adoramos música clássica e que apesar de não gostarmos de fado admiramos a amália. arranjamos desculpas constantes para a nossa vida miserável e dizemos aquilo com um ar tão profundo que até parece que acreditamos na idiotice que estamos a vomitar. somos consumidos por esta merda todos os dias e nem nos apercebemos.

um dos clichés mais comuns no cinema é “as pessoas são assim blá blá blá porque se sentem sós”. ora, isto não é senão arranjarmos uma desculpa fácil para o facto de não termos valores, termos perdido a esperança, o interesse ou o entusiasmo. estamos entediados e deprimidos. prefere-se atribuir as culpas à solidão porque assim está o assunto resolvido e escusamos de ter o trabalho de compor aquilo que andamos a destruir à medida que vamos crescendo. tratamo-nos mal para facilitar a sociabilização e o progresso e para isso inventamos redes sociais, memórias e opiniões. mas, na verdade, estamos apenas com uma terrível crise identitária e dominados pela preguiça. já não sabemos o que andamos aqui a fazer ou para quê; o que está certo ou errado; o que é bom ou mau. agonizamos e descartamos tudo na solidão. nós, todos, um cliché.

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chamem-me pudico, pouco me importa. nem tampouco compreendo o problema do pudor. guardo apenas a minha devassidão para a intimidade e restrinjo-a na praça. prefiro chamar-lhe civilidade para que possa despir a timidez em vez da vergonha. é uma reserva e não um moralismo. e quando infringir as minhas regras, nos limites da decência, não estarei a fazer mais do que a minha obrigação.

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hibernação

nunca compreendi por que é que as pessoas deprimem com a invernia. não há nada mais confortável para o espírito, não há melhor bálsamo para o sossego que o tempo cinzento. como costuma dizer o filipe nunes vicente, é a altura em que nos é devolvida uma certa civilidade, longe daquela gritaria do verão, das hormonas adolescentes e da necessidade pateta da rua. eu insisto: por favor, não me incomodem pois estou muito bem em casa, feliz da vida. não é misantropia, é bem-estar.

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