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Archive for Março, 2012

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ela

é a única estação de género feminino, precedida pelo deprimido inverno e à qual sucede o verão moreno e depilado. poderá ter-lhe sido concedido o género pelo seu perfume fresco e sensual. mas, é no seu temperamento inconstante que mais se assemelha à tendência feminina. entre as noites suaves e doces e o frio lancinante. entre as tardes soalheiras e as águas tardias e implacáveis. é o fim do tédio e o nascimento do desejo e do prazer; dos dedos cravados na pele e dos corpos quentes entrelaçados na madrugada.

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this mess we’re in

esta confusão em que estamos metidos. é um estreito labirinto de cactos. é o relógio – tic tac – a apressar a angústia dos dias. esta confusão em que estamos metidos. é a minha falta de jeito.

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sumário

a poesia é um corpo original construído por palavras livres. é sentir a vida como nos apetece, mesmo quando não se sente nada, de todo.

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a fé

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aforismo

só se sai de uma zona de conforto pela necessidade de se ficar confortável consigo mesmo.

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em mi menor

nota prolongada, lânguida de triste, em que se atravessam as criaturas da cidade e onde caem gotas grossas de água. é uma pressa em câmara lenta, daqui.

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Pergunto-me, muitas vezes, quantas pessoas estarão no meu funeral. Com a sorte que eu tenho e com os amigos dispersos, por aí, as agendas estarão demasiado preenchidas. Já não existirão pais e irmãos e primos, que são os que nos amam incondicionalmente. Aqueles que lá estiverem irão reduzir a minha existência a um conjunto de conquistas vãs, mal amanhadas, e a uma bondade insípida. Gostava que chorassem. Porém, o meu funeral será, também, o meu julgamento. As intenções serão relativzadas – as boas e as más. E quem irá escrever o epitáfio que ficará inscrito na campa para a eternidade? O que dirão de mim que seja mais generoso do que aquilo que eu concebo para mim mesmo? Inquieta-me que façam tudo mal e que eu nem sequer tenha a oportunidade de contradizer.

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cena do quotidiano

Tanta cidade, tanta urbanidade, e as reuniões de condomínio são feitas nos halls dos prédios. O reflexo da transparência saloia. Chega um homem a casa para isto? Não. Atravessei-me à frente da porta e precipitei-me rua abaixo. Ao fundo ainda ouvi um grito: “Aquele também aqui mora! Agarrem-no!”. Corri até não mais poder. Nunca me apanharão vivo.

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da relatividade

a distância mais curta entre dois pontos é a disponibilidade.

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o celtibanco

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cuidar dos vivos

Numa aldeia perto de Figueiró dos Vinhos nasce um ribeiro que, por sorte, segue todo lampeiro até se espreguiçar numa tranquila piscina natural. Pelo caminho, encontra aqui e ali velhas casas de assombro que vão ficando de herança, imóveis. Numa dessas casas, dormi uma noite de Setembro com uma mulher, cujo nome não me quero lembrar. Recordo, sim, uma cortina branca, quase transparente, que de tão suja que estava, não se mexia com o vento. Foi uma noite longa, a ver os santinhos abandonados em cima de cómodas, como bibelôs nos seus altares naturais, e a sentir o cheiro húmido do património de família desconhecida. Na manhã seguinte, reparei que na cozinha estavam três copos de plástico coloridos, uma embalagem de chocolate em pó e três ou quatro iogurtes dentro do prazo de validade. Cá fora, no alpendre, partes de dois ou três jornais, um de 2002 e outro de Janeiro de 2003. Corria pouca água, mas a que corria era quente. No corredor dos quartos, ainda vi a fotografia de dois mortos, muito bem arranjadinhos para a época. Achei estranho que ficassem surpreendidos quando, assim que cheguei à vila, perguntei se, pelo menos, lhes regavam as flores da campa.

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a geometria dos poderes

separei os poderes para me focar nas distintas matérias sem interferência, sem distracções. cheguei a um triângulo de ângulo obtuso, do qual depende a minha permanência por aqui.

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as flores do mal

Por detrás dos muros do Palácio, há uma rua com jacarandás. Os jacarandás anunciam, agora, a chegada da Primavera tal como sempre a conhecemos. O sol aquece o dia, ainda alto, e o calor que se faz sentir é rápido. Ainda assim, hoje senti o primeiro cheiro da Primavera. Regressou alguma passarada e estão, também, de volta as roupas ligeiras. Ao meu lado, ele lamentava as perdas irreparáveis no seu olival e na vinha – consequências da falta de chuva. Também os carros ficarão imundos por causa dos jacarandás e os danos serão irreparáveis se sobre eles não cair um peso de água. Sim, é verdade: aí está a Primavera. Mas, isso não é necessariamente bom.

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um alimento

sempre que tenho saudades de alguém sinto um aperto no estômago. como se todas as faltas se dirigissem para lá. ou então, no fundo, a companhia é um alimento.

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uma campaniça

toca na minha cabeça uma viola campaniça. e desaparece o barulho da cidade. e regressa o sopro nas searas. e a melancolia é, agora, uma coisa que faz respirar. já não quero olhar mais pela janela.

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em linha recta

aquele que nunca sentiu vergonha não conhece a força do carácter.

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no direction home

de ossos e nervos contraídos e cansados, arranca-se um fim-de-semana a ferros. não ter um sítio para cair e andar por aí a tentar ficar de pé é bem mais desgastante. acho, até, que já nem sei dançar.

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não se tocaram trombetas, nem houve confetis. a rua não parou, nem a televisão anunciou com pompa e circunstância as celebrações do evento. não houve discursos inflamados, nem poemas escritos por toda a cidade. ainda se ouve – isso sim – um silêncio gratificante.

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