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Posts Tagged ‘acordar em…’

uma desilusão

Uma luz celeste saiu por detrás dos prédios quando começou a canção de Gardel. Dois homens, distraídos, continuaram a conversar e os gatos ficaram estáticos e cândidos. Lembro-me, vagamente, de ter sentido um estranho toque do metal, como se fosse domingo. Mas não me lembro de não haver Deus. Sonhei que estaria, talvez, em Paris. Afinal, era apenas Buenos Aires.

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the national

“Vamos! Despacha-te que é tarde.” Visto o casaco à pressa e mal tenho tempo de verificar se está tudo bem, ao espelho. Sempre bem parecido, banho tomado, ressaca a desaparecer e o estômago vazio. Saímos de Temple e subimos em direcção a norte. “Comemos pelo caminho. Despacha-te que ainda temos de passar em Eldonian para fazer as apostas.” Às vezes o meu pai ainda acha que eu tenho 12 anos, no tempo em que corria atrás dele pelas ruas da cidade, sempre com os seus planos de fim-de-semana, tudo muito bem montado. Uma correria. Sempre a correr. Menos depois do almoço quando passeávamos calmamente e ele me contava da vez que tinha falado com o Ringo e que lhe parecera um tipo impecável, ou então da vez em que o Prince Charles lhe elogiou o cavalo. “O Arizona Kid foi o melhor cavalo que correu o National.” Sempre as mesmas histórias, o mesmo revivalismo, os olhos vidrados como quem já só olha para lado algum. Assim que chegarmos a Aintree vai garantir-me que temos vencedor. Como sempre, vamos perder.

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mexicola

acordo na fronteira. entre os dentes, uma mistura de pó e tequilla. os dedos sem os anéis. acordo como um cão que agoniza no asfalto. levanto-me e decido regressar a chicago. tudo ficará bem, em chicago.

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acordar em…

Poderia ser noutra cidade, mas não, era ali mesmo, onde a miséria desliza pelas sarjetas e o cheiro da pobreza inunda a atmosfera. São já 40ºC em New Orleans e na rua ouve-se a voz canídia de um rapaz que vai descrevendo os homens à passagem do tempo. Compro cigarros, mas não me deixam fumar. Bebo um bourbon, mas não me deixam partir nada. Verão de 77, Verão de 2047. Talvez seja a mesma coisa, mas em todo o caso espeto um canivete na perna não vá o cenário piorar.

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A cantora brasileira

Acorda convicta todos os dias no meio do ruído e das cinzas que se espalham a cada segundo pela Paulista. Quase não se vê o céu. Mas ela acorda com os dedos finos e o jeito leve accionando automatismos contra-natura como que imitando a própria cidade. Volta à cama e olha de novo a grande avenida onde o cano de escape estoura nas fuças do pedinte e acentua ainda mais a miséria das ruas americanizadas. O seu corpo é então o reflexo do que tem guardado lá dentro: o samba transformado em funk distorcido. Olhar distante e lábios doces, é esta mulher o Céu de São Paulo.

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Creta

Dormimos até tarde e já só esperavam os restos do grande almoço. O sol estalava sobre a mesa. Pegámos nas maçãs e numa garrafa de vinho e saímos pelas sombras mediterrânicas em direcção ao mar. Era uma tarde longa como todas as tardes em que a ilha se ilumina lentamente, onde os campos produzem cultura e a história se ergue em cada colina. Nas casas há um fio de azeite fresco que tempera a brisa e, quando o sol se põe, nasce a ideia clássica que só se encontra nos poemas. Ah!, Creta – minha ilusão libertina e conservadora.

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Cordoba

Depois do calor do deserto andaluz chegamos finalmente a Cordoba, à frescura da sua medina colorida; o oasis desejado noutro deserto – o de Maio. No silêncio, pelo meio do branco das pequenas casas, parece ouvir-se o suspirar de Alá vestido de negro. Depois, à sombra da mesquita, um cesto de laranjas frescas e uma ou outra garrafa de Jerez trazida de uma longa viagem de Cádiz. Ah Cordoba!, província infinita, lugar constante do meu sonho.

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