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cada vez mais, o menos

Tenho perdido a paciência e alguma generosidade. Por estes dias, pouca atenção tenho dado aos problemas alheios. Já pouco me importa. Cada vez menos, vou falando com a família. Visito um ou dois amigos e tento escapar a programas de agenda predefinida. Mesmo assim, cada vez mais, tenho menos tempo.

almas cansadas

Alguns já emigraram. Outros estão meio perdidos pelas mesas dos cafés, à noite, entre os brandis e a cerveja; a barba por fazer; os olhos vidrados de desorientação e de raiva. Já pouco se vêem durante o dia. Estão conformados com a impotência dos outros. Perderam o gosto pelas coisas e o discernimento. Vivem, agora, de um orgulho reactivo e fazem o inverno parecer mais longo.

adeus, companheiro

do tempo, da cidade, dos dias e das noites serenas, da primavera, da certeza das coisas simples, do compasso livre, da leveza dos pés, das manhãs e do dia presente.

empatia

tenho arriscado não olhar para o termómetro. as horas, vejo-as pelo relógio de pulso e já há algum tempo que ignoro as notícias na rádio, bem como não ligo a televisão com a mesma frequência de outros tempos. tudo isto faz parte de um plano de alheamento. e está a resultar. sinto-me muito mais próximo dos outros.

repetição

saltos altos num compasso certo e outros sons. na rua é segunda-feira. é preciso fazer a barba.

the day i tried to live

já chegaste a uma idade em que não compensa acordar tarde. acabou. e, agora, sabes que podes aproveitar os domingos de manhã para arrumar os dias. devias escrever mas, preferes ficar a olhar para a janela, com a palma da mão sob o queixo, a ver a rua pelo cortinado. ficas ali, a pensar na liberdade, no amor e na lista de compras. decisões fáceis para um domingo: a lista de compras, sempre.

os contos da preguiça

Devia ser proibido por lei bater à porta das pessoas depois das nove e meia da noite. Quando soou a campainha (passariam poucos minutos das dez horas), eu estava já de pijama e robe, decidido a iniciar uma leitura recomendada por um colega do serviço muito entendido na história da política do final do século XIX.
– Boa noite, vizinho. Queira desculpar a hora…
– Boa noite. Passa-se alguma coisa? –  respondi num tom surpreendido, encenado.
Ramalho, o meu vizinho do 2ºesquerdo, era um tipo simpático, educado e silencioso. Nunca tive de chamar a polícia para o fazer entender o bem-estar alheio. Daí que, parte da minha surpresa, era genuína. Estava ensopado e visivelmente constrangido. Apressou-se a justificar o descaramento:
– Eu peço imensa desculpa, vizinho, mas não fosse o sucedido ter contornos de tragédia e nunca o viria incomodar. Hoje, saí um pouco mais tarde do trabalho. Talvez por isso, tive de estacionar o carro num sítio pouco habitual, já no fim da rua. Ali, ao pé do antigo edifício do colégio…
Continuou a explicar o evento, mas eu já estava a ver o filme todo. Foi como se o deixasse de ouvir. Porque lhe caiu uma pedra do tamanho de um meteorito em cima da viatura, e agora não conseguia tirar dali o carro, porque mais não sei o quê, e vai de pensar que seria uma excelente ideia bater-me à porta, a mim, que para além de ter cara de Santa Casa da Misericórdia, ainda lhe devo ter parecido um Hércules. Eu, de pijama e robe, às nove e meia da noite…
Um dilema infernal apoderou-se de mim. Por um lado, queria escapar da obrigação de o ajudar, enquanto bom vizinho, a resolver o seu problema, prestando-me a um papel solidário que tanta falta faz nesta sociedade toda estraçalhada pelo egoísmo e pela corrupção da moralidade. Por outro lado, choviam facas de mato, lá fora; o vento batia nos beirais dos prédios e assobiava como uma alma penada em sofrimento eterno; a chaleira guinchava com a água a escaldar. Senti o corpo tremer, como um arrepio de febre repentina. Os joelhos amoleceram, quentes, e os olhos começaram a arder de sono, como se o pedido de auxílio tivesse feito despertar Morfeu dentro do meu espírito já pouco motivado, de si. Estava, espiritualmente, de pijama.
– Ó sr. Ramalho, eu gostaria tanto de o ajudar! Por infelicidade, a minha hérnia hoje deixou-me num estado tal, que julgo nem conseguir levantar um copo. Mas, talvez eu possa ajudar… Não sei… Quer que ligue para os bombeiros?
– Já liguei três vezes. Parece que há uma inundação muito grande na avenida e que está tudo para lá destacado. Que não podem fazer nada, que já se arrebentaram mais de cinco condutas e que o veterinário já teve de evacuar o consultório. A confusão é tal, que na rua de baixo, uma senhora ligou para a polícia a dizer que devia ter acontecido alguma coisa no Jardim Zoológico, veja lá. O que é que eu hei-de fazer à minha vida?
Não tinha resposta para isto. Nunca tive.
Fiquei ali, a tentar acabar com a conversa para não me sentir cada vez mais obrigado. Ensaiei um ligeiro bluff que acabou por ter um resultado muito positivo para as minhas pretensões:
– Deixe-se estar, homem. Não vai piorar o seu estado só para me ajudar. Nem pensar! Vou tentar pedir ajuda ao Teixeira, que a esta hora já deve ter chegado da barbearia. Não que ele consiga fazer grande coisa só com um braço, mas… Sempre é alguma coisa.
Despediu-se, agradeceu muito a minha atenção e desceu as escadas.
Voltei para dentro e, com esta conversa toda, a água já estava morna. Voltei a aquecê-la e subi a um banco para ir buscar o bule, no topo do armário da cozinha. A minha irmã já me havia alertado para aquele banco. Todas as terças-feiras, quando cá vem para levar a roupa, deixa sempre dois ou três recados logísticos muito pertinentes. Como raramente uso aquele banco, não liguei.
Estendido no chão da cozinha, pus-me a pensar em Ramalho, deitado na sua cama, ferrado no sono, depois do dia atribulado. Ainda ouvi, ao longe, duas ou três sirenes e olhei para o telefone, no corredor, já sem convicção. Ao fundo, a porta, como o fim do túnel, silenciosa, imóvel. Àquela hora ninguém tocaria, certamente.