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Archive for Abril, 2010

cais do sodré

À beira-rio uma pequena ratazana atravessa o passeio até às rochas e regressa apressadamente para dentro do armazém abandonado assim que sente o barco aproximar-se. Um pouco mais distante, um pescador concentrado desenrola a linha da cana enquanto um grupo de turistas o olha fascinado. Didn’t know they still had fish in the river. Ao cais chegam algumas almas cansadas, cabisbaixas e sorumbáticas que entram invisíveis pela gare e desaparecem na sombra do fim-da-tarde. É uma outra cidade que daqui vejo, longe das modas e do design, longe das luzes da Avenida e do glamour urbano. É feia e genuína como nós.

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Quando eu era pequeno, e pequeno nos termos do adorável a vários títulos, havia um globo lá por casa que brilhava com uma luz que orientava o olhar a norte e colocava a Terra numa posição quase absoluta. Pensar a Terra como um globo era um exercício e não uma percepção – um dogma civilizacional ou até work in progress. Nada que fizesse alguém, em tão tenra idade, questionar essa verdade insofismável. Era pequeno, apenas pequeno. Os anos trouxeram o resto do Universo, tal como o quotidiano e a poesia; a ciência e o empirismo; a guerra e a paz. Hoje, ao caminhar em bossa nova pelo passeio fatalista da minha rua, vi a Terra ovalar o quarteirão da escola e figurar-se redonda num globo de mar em que as nuvens assumiam a espuma, e a lua, quase longe, fazia o papel da pequena luz marcando uma presença consoladora. Já junto do tosco canteiro suburbano, as flores emanaram um perfume singelo e fresco em guerra breve contra o meu olfacto enfumarado e, à falta de descrição imediata, fiz-me um pequeno Galileu em frente da imensidão.

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Caro Eremita,

A diferença entre Ourique e Avalon é que por aqui desfruta-se do que a arte nos oferece até ao limite. Não se perde muito tempo a pensar nisso apesar da sua natureza autobiográfica. Quem se preocupa demasiado com a manifestação da sua cultura não aproveita os seus verdadeiros frutos nesse sentido de ser um complemento dos dias. O excesso é a montra da vaidade.

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manhã II

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manhã

É uma rua como todas as ruas
Numa madrugada serena de Abril
Que, como todas as madrugadas,
Nasceu com as sarjetas e o cheiro
Da minha rua e das outras ruas
De todos os subúrbios do mundo
Onde rapazes como eu esperam
Ver o céu clarear e a luz vir, por fim,
Trazer o dia concreto que é hoje.

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canções de amor

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Vi-a apenas uma vez. Tinha uns olhos amendoados objectivos e uma franja dessas modernas que lhe favorecia o sorriso claro mas sóbrio. Sonhei com ela agora, passados dias, talvez semanas, e toda essa sua sobriedade dançou alegremente o Domingo.

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