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Posts Tagged ‘country boy’

horizonte

Tenho pensado em mudar-me para a província. Este poderá, até, ser um bom plano para um futuro próximo. É claro que fica sempre bem querer mudar para o campo no estrangeiro, já que o campo, por cá, é bruto, pouco sofisticado e aborrecido. Ainda assim, continuo a preferir o sossego da lezíria. E não é que algo me mova contra a cidade mas, sou mais um rapaz do campo do que um homem da cidade. Não tenho jeito para agendas, estacionamento e trânsito de rotina; não me adapto às novidades e é raro suportar as conversas da urbanidade. Gosto do tempo sem desperdício e de aproveitar as horas a passarem no horizonte.

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the american dream

Pouco depois de começarmos a conversar, o rapaz arrependeu-se de estar bêbado. Tinha, talvez, por hábito encharcar-se em cerveja nas noitadas com os amigos, porque pouco mais haveria entre eles para além da identidade. “Come and drink with us, Chris”. O jovem militar mostrou algum embaraço e voltou a pedir desculpa. Falámos um pouco mais de geografia e das coisas que simbolizam. No fim, disse-me que eu deveria ir viver para North Carolina. Voltei para casa e pus-me a procurar na internet. Fazia isto muitas vezes, dantes. Passei horas a ver fotografias da província americana. Sonhei com o Ohio do Neil Young e com o Arizona de John Ford. Eu, que nunca passei qualquer fronteira.

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desde pequeno que, depois dos talheres cruzados, os acompanhava à vila. ao deixar o monte, ficava a pensar se, na minha ausência, não aconteceriam coisas mágicas, acontecimentos invulgares. a tarde que nasce lenta depois do almoço, premeia sempre os que decidem ficar, os que se deixam estar, sonolentos, numa serenidade natural. na vila, o tempo nunca é natural. à frente da igreja, dois ou três cafés, com os toldos patrocinados envelhecidos, as montras gradeadas, a solidão do progresso desiludido e uma angústia inerte, ansiosa pela segunda-feira. porém, desta vez fiquei, e do sossego digestivo surgiu a música a iluminar o montado e o pequeno lagar, arrancando a alegria das cadeiras de verga, numa valsa livre e solta. os animais brincavam como crianças e os velhos sorriam empolgados com a magia da dança. no caminho de volta, já melancólico, fiquei a ver a seara passar e desaparecer, seca e infértil. acabei por adormecer com a trovoada, ainda com lábios de vinho, enquanto no banco da frente eles ainda falavam da rotina da semana anterior. um pouco mais tarde, acordei com o ruidoso tabuleiro da ponte e vi o domingo pesar e arrastar-se, negro, sobre a cidade. voltei para casa, tonto.

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