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Posts Tagged ‘literatura’

Muitos recordam Lorca pela sua personalidade política. Outros tantos lembram a sua aficción e tudo o que deu à cultura dos toiros. Porém, Lorca, mais do que um homem foi um grande poeta, que é o que lhe vale a imortalidade. Federico escrevia com tudo o que os seus olhos alcançavam: desde a grande planície andaluza, até à vida que escorre pelo asfalto de Nova Iorque. Sonhou com o mundo tal como o via, e não como gostaria que ele fosse, e sobre ele escreveu lentas valsas de amor trágico. Querido Federico, queria dizer-te que estás sempre por perto.

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as margens do rio

Scorcese fez uma carreira inteira dedicada à violência. Desde Alice doesn’t live here anymore até Shutter Island. Nesse percurso, foi descobrindo coisas que estão fora do âmbito jurídico. Coisas. A violência contra si mesmo, a violência contra o outro. A inadequação ao real. Temo que a arte não seja, de facto, tão transcendente. Há, antes, fenómenos que nos transcendem. O tio Stan explica, a partir de Burgess.

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15 anos de Borges

A 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires para que voltasse imediatamente porque o meu pai não estava “nada bem”. Deus me perdoe; o prestígio de ser destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a todo o Fray Bentos a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um viril estoicismo, talvez me tenham distraído de toda a possibilidade de dor.

Jorge Luis Borges, Funes, el memorioso

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Uma das coisas que me fez querer morar em Lisboa foi a sublime música de Júlio Pereira. Em adolescente, acreditava que era possível escrever o sol em todas as suas ruas, navegar pelas sílabas da sua diversidade, gatinhar pelo estuário e acabar estendido nas avenidas estafado de tanto movimento. Vi os turistas e os lisboetas, os migrados e os passantes. Vi a Baixa a escorrer dinheiro e o Chiado a namorar rapazes e raparigas em longas tardes de Verão. Juro que respirei outonos em poucas horas na Av. Berna e no Campo Pequeno, e acredito até ter assistido a um filme neorealista no Cais do Sodré. Houve dias em que acreditei que casaria com a Graça ou que, se me tornasse burguês, cederia aos encantos da Estrela. Passeei involuntário na Sé e desci Alfama porque me pareceu lógico. Embebedei-me de Avenidas. Devo esta minha canção ao Mestre Pereira, a José Cardoso Pires e a horas de documentários estranhos na :2. Mas principalmente ao Mestre Pereira.

*perdoem-me a extrema lamechice aryiana.

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“E insistiu em examiná‑la, com manifesta vontade de rir. E com razão. Pois a pseudofada parecia… Parecia, não. Era… Era mesmo um homem vestido de mulher, como se deduzia no desarrumo da cabeleira postiça à banda, no negror evidente da barba mal disfarçada por várias camadas de pó‑de‑arroz, além da maneira canhestra e hirta de andar e da falta daqueles mil e um ademanes femininos tão difíceis de imitar pelos homens. O jeito de pentear os cabelos com os dedos, por exemplo. Embora não desejasse humilhá‑lo, João Sem Medo não evitou um incondescendente riso de chacota.
– Que queres, filho? – explicou a fada falsificada, vexadíssima, a tropeçar na túnica. – Quando telefonaram para a Repartição da 3.ª Mágica a requisitar uma funcionária, só me encontrava lá eu, que sou contínuo, e uma fada já muito velhinha, muito perra, entrevada de reumatismo e com mais de 50 000 anos de serviço activo, quase na idade da reforma por inteiro, coitadinha! E então, por uma questão de prestígio, ofereci‑me para esta fantochada. Nem quero pensar no que diria o Mago‑Mor se não mandássemos uma fada válida para os Dois Caminhos. Pregava‑nos uma descompostura tremenda. Foi por isso que me mascarei e vim… Não julgues, porém, que não percebo de artes mágicas!E estadeou cheio de soberba vaidosa:
– Aqui, onde me vês, transformo com um piparote homens em ratos. E até deito flores pela boca. E sapinhos… Queres ver?
– Não, não – interrompeu João Sem Medo. – Acredito. Embora não entenda porque, sabendo tu tanto de artes mágicas, não te transfiguraste logo em mulher em vez de recorrer a esses ridículos caracóis postiços.
– Porque, segundo a regra primeira da Constituição Secreta do Mundo, só as aparências são susceptíveis de mudança e nunca o que existe de mais profundo nos seres. O sexo, por exemplo. Por mais que isso te espante, ser‑me‑ia fácil transformar‑te em rato, mas nunca em rata.
– Bem, bem. Deixa‑te de lérias – impacientou‑se João Sem Medo. – E, já agora, toma a sério o teu papel de fada e aconselha‑me qual dos caminhos devo seguir: o asfaltado ou o dos pedregulhos?
– Olha, menino – elucidou o contínuo, de roca debaixo do sovaco, a aconchegar a cabeleira para esconder melhor o luzidio da careca –, o bom caminho conduz à Felicidade. E o mau, à infelicidade…
– Vou pelo bom caminho, como é costume, claro – resolveu João Sem Medo, embora desconfiado de tanta facilidade aparente. – O contrário seria idiota e doentio.”

José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo, Panfleto Mágico em Forma de Romance

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110

Perdemos três coisas ao não ler o Eça: capacidade de auto-crítica, interpretação de figuras de estilo (e que jeito dava nesta internet de iletrados e de despropósitos) e compreensão subjectiva do meio. Perdemos, portanto, uma parte fundamental da adaptação à vida em comunidade. E o cenário mantém-se o mesmo.

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Que a máquina infernal os leve a comprar iPhones e iPods, arroz basmati ou tofu banhado de espermicida, isso compreende-se. Mas um livro, foda-se.

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