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Archive for Outubro, 2009

a good day to die

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aníbal. meu querido aníbal. o tempo passou por ele com brutalidade e o cancro atropelou-o. ainda assim levantou-se e ergueu-se para a reforma. mantém ainda o cabelo preto puxado para trás e as suiças em forma de enxada até ao maxilar como qualquer outro homem da lezíria. mas, quando o via passar na rua ele não era tão altivo como quando se aproximava de mim e me servia a comida tirando-a da travessa com uma agilidade nunca antes vista, aquela elegância e segurança que lhe davam ares de fred astaire da hotelaria pobre. não. na rua ele era mais um, com andar rápido, corpo inclinado e um casaco frágil que lhe fazia os ombros ainda mais descaídos. dentro do restaurante um rei, na rua um tonto que bebia em demasia, que arrastava uma espécie de cadáver adiado. e tudo isso voltava a desaparecer quando se aproximava da mesa e me enganava com os pedidos. trocava a minha vontade para depois satisfazer a primeira quando eu já estava pronto para a segunda escolha e a minha percepção desmaiava de tontura. desde que me lembro. meu querido aníbal. a rua – a realidade – muda as pessoas, torna-as visivelmente vulneráveis aos nossos olhos, destrói a imagem que criámos, sabota a ilusão daquilo que era. a realidade é damsiado bruta quando somos crianças. a memória é a maior certeza da fantasia que nos resta.

 

*pequeno verso do horizonte de fernando pessoa.

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uma prenda para mim

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manhã de outubro, 28

“Mas a infância é já de si mesma uma doença para um homem. Excepto quando ser homem é ainda doença maior.”

Vergílio Ferreira, Para Sempre.

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um estranho caso de melancolia

estou sentado a ver este vídeo quando de repente, ao cheirar a mão, me lembro de uma situação concreta, um lugar específico. mais: lembro-me das sensações exactas experimentadas nesse preciso momento. não como alguém que se lembra de uma pessoa e a imagina dramaticamente num certo lugar onde um dia foi feliz. o dramatismo é coisa de adolescentes. esta recordação é de um estado de espírito, do cheiro quente do corpo e do seu movimento interior num dia cinzento e de intensa humidade. não é uma mera lembrança lamechas, mas sim uma verdadeira e perturbante reminiscência.

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e agora um calor estranho, desconfortável, que ataca os poros e deixa a pele espessa. o outono foi sempre injustiçado. é a única estação que quando é interrompida ninguém se manifesta. o parente pobre do ano. pois eu quero esse outono de volta: o frio, a chuva ligeira, a queda das folhas, o cheiro das fogueiras, a sombra constante, a solidão disfarçada de melancolia prêt-à-porter.

 

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andar na vida à procura

um fado que o meu amigo joão ferreira rosa escreveu aos 20 e poucos anos, há muito, muito tempo atrás.

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