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Posts Tagged ‘simbolismo’

heroína

de boas recordações está o inferno cheio. recordações doseadas para dentro de uma colher, aquecidas. as boas recordações são uma desculpa para não seguir em frente e, por isso, são um vício injectável. é preciso acabar com a memória.

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Olha para as estrelas, pequena, que não há mais metafísica que essa. Esquece a cidade e o governo e deslumbra-te com a luz lá de cima que aquece o cheiro transcendente dos que passam. E mesmo que chova, fecha os olhos e olha para as estrelas.

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A dúvida

“Otelo – (…) Pelo céu, é preferível ser enganado muito, a saber pouco do que se passa.”

Otelo, William Shakespeare

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de agosto

No dia que lhe arranjaram para celebrar o seu breve regresso a casa, o emigrante desabafa. O luxo inicial que traz lá de fora leva-o a elogiar esse mundo evoluído e progressista, tão distante de um Portugal atrasado e conservador. Vocês aqui, sempre na mesma desgraça. Mas o almoço vai longo, o sol já queima e o cheiro a casa deixa-o melancólico, acabando por contar como a vida lá é difícil, como há impostos e taxas para tudo, como as pessoas se distanciam dos outros e até de si mesmas, como não há nada como casa. O emigrante estereotipado vs. o jovem qualificado que parte à descoberta do mundo e se vê agora confrontado com o paradoxo da diferença, que se vê a braços com um sentimento estranho de saudade porque nunca compreendeu que noutro lugar nada será igual. E isso não é necessariamente bom. Como diria Caeiro, “Eu sou do tamanho daquilo que vejo e não do da minha altura”.

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capitão nemo

Depois dos moinhos, o mar. Sempre o mar, a lembrar que há tanta vida para além daquela que nos querem vender, que o que temos ali mesmo à mão de semear é tão maior que nem se justifica andarmos a remendar vidas – a nossa. Devo a Nemo grande parte da qualidade do meu espírito mais livre e a certeza da solidão.

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Enquanto ela ficou na cidade – esse sua obrigação prazenteira – sou empurrado para longe do fatalismo dos dias, dos maus resultados e da atenção que o cinzento suscita nessas alturas. Olho para os pés descalços. Está tudo bem: a areia, o ar, a água, a liberdade. Está tudo nos pés. Enquanto nos obrigarem a calçar sapatos nunca seremos livres. Eu sei isso, mas ela não.

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da natureza

Nunca fumo dentro de casa. É uma espécie de filosofia a que me obrigo para evitar que o vício invada as matérias ornamentais e me leve a respirá-lo inconscientemente. Pratico com solenidade a minha filosofia como um ritual kantiano e espero nunca ser traído pela força dessa razão. Mas a nossa natureza não é compatível com tais rituais. Inventamos os rituais para nos proteger da nossa própria natureza. Vejo, então, um Junho inquieto e pouco vulgar. Analiso ao milímetro as suas alterações e recorro ao preciosísmo de Verne para me lembrar que tudo se transforma. Lá fora, uma ligeira brisa corre pelas sombras dos prédios e o cheiro do mar precorre os passeios como que varrendo as filosofias e certificando a ciência. Sinto a inevitável mudança. Sou, agora, um pouco menos conservador. Compro cigarros e regresso a casa.

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mergulho

numa tarde soalheira de abril mergulhei optimista no mar, mas como quem mergulha num mato denso, na cira agreste das margens do grande rio, em vez de sentir o conforto melífluo da seara verde. mesmo assim saiu do meu corpo a impossibilidade e floriu, enfim, o alívio.

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Ela diz-me em conversa que só aproveitamos as vistas quando as olhamos de vez em quando; que a regularidade as banaliza. Não posso estar mais em desacordo. Para que serviriam as vistas se apenas desfrutássemos delas visualmente? O seu desfrute é algo que sentimos na pele, na qualidade dos dias e na certeza das horas.

Houve um tempo em que, com outros, descia em direcção ao mar, todos os dias, quase sempre pela mesma hora. Pelo meio das casas e das árvores a ideia de mar crescia assim como a luz que se refastelava sobre a praia. Já nem ligávamos, é certo. Mas a verdade é que o gozo do caminho, a certeza da paisagem e o seu efeito pavloviano que tinha em cada passo nosso tornavam os dias melhores.

Não é a regularidade da paisagem que lhe tira a emoção, mas sim a ditadura da novidade.

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maldição atlântica

ao contrário do blues, o fado transporta uma dor abstracta, muitas vezes inexplicável; uma aflição que nos esmaga o peito mas que não sabemos muito bem de onde vem. no blues a ausência é efectiva: ela deixou-me, ela não volta, ela não quer. porém, no fado, nem vendendo a alma ao diabo aliviamos a dor. até o blues tem solução…

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terno

há umas semanas, num jogo do milan, vi leonardo à beira do desespero vestindo um trench coat azul. lembrei-me, naturalmente, dos filmes italianos da década de 80 onde os detectives vestiam sempre gabardines azuis, inspirados por “o polvo”. com um ar sofrido e melancólico, aquele azul condenava-os à desgraça. até tom waits relembra isso em telephone call from istanbul ao afirmar sem tibieza “never trust a man in a blue trench coat, never drive a car when your dead”. aquela peça de roupa mostra um leonardo fragilizado à partida. vai chover, leonardo, e o campo vai ficar enlameado e tu irás desesperar porque a equipa não consegue desenvolver, como um motor gripado.

é claro que nestas condições a imagem de leonardo será sempre a do tapa buracos do clube sem dinheiro, uma espécie de paulo bento à italiana ou, no limite, um chalana resignado. nada comparado com o guardiola de hoje que usava um fato de três peças – um terno, como lhe chamam os brasileiros. só isto já faz dele um vencedor. quando os jogadores olham para o banco não vêem o desespero de um trench coat azul e sabem que não estão num veículo conduzido por um morto. sabem, isso sim, que ali está um homem elegante em quem podem confiar.

a estética do conservadorismo sempre me sugeriu mais confiança que outra qualquer.

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interpretação literal

gino. foi ele que me ensinou a ouvir walk on the wild side. foi ele que me chamou à atenção para a displicência da expressão enquanto forma de enxotar alguém, enquanto manifestação de indiferença, como quem diz “vai lá à tua vidinha e não me consumas o juízo”. a mais comum interpretação – pelos portugueses – do tema em causa é a da rebeldia, a ideia de que “walk on the wild side” é uma espécie de “livin’ la vida lôca”.

num célebre concerto nos idos 80’s, o rapaz que canta à frente de uma banda chamada u2 teve de explicar que i still haven’t found what i’m looking for era uma canção sobre deus e não sobre amor e que pelo menos os adolescentes a deixassem de dedicar aos seus apaixonados por motivos sexuais.

também em palco, tom barman teve de perguntar “what the fuck you’re claping for?” quando o público se entusiasmou em palmas no momento em que este tocava um tema sobre uma violação. tema esse, aliás, inserido num disco da sua banda – deus – que falava essencialmente sobre a causa e a consequência do uso de drogas, tendo sido isso muitas vezes confundido com temas de amor.

lennon tentou justificar o tema lucy in the sky with diamonds e parece que o mundo inteiro comeu a história mesmo que por pura coincidência histórico-psicadélica as iniciais do tema resultem em lsd.

voltamos então a lou reed e desta vez a perfect day. julgo que já não será necessário explicar a intenção do autor. desenganem-se, portanto, os galãs intelectuais que estão constantemente a forçar o sexo, salvo seja. a todos eles e a todos os literalistas desejamos apenas que vão dar uma volta.

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