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Posts Tagged ‘homem na cidade’

Houve um tempo em que viajava com o meu pai. Ficávamos em hotéis e jantávamos todos os dias fora. Durante o dia, ele visitava clientes e eu ficava à solta por Lisboa. E lá ia eu, na 5 de Outubro à Av. de Berna, com todo o tempo. Tentava parecer um local: andar cool, lento, despreocupado mas observador. Sonhava, então, em ser qualquer coisa que me permitisse sair do trabalho e sentar-me num bar, com os amigos, a beber um uísque. Sim, quando for grande quero ter o prazer de sair do trabalho, todos os dias, e ir aproveitar a cidade. Ser adulto significava essa liberdade de estética conservadora e melancólica. Ficava fascinado com os bares dos hotéis: as raparigas a fazer conversa com os homens de negócio, de pernas cruzadas, em constante sedução; o fumo lânguido dos cigarros; os copos Old Fashioned a reluzirem. Achava eu que seria assim, com todo o tempo. Mas, depois, um tipo cresce e há compras para fazer e jantar em casa, há o cansaço e as horas extra. A grande ilusão é a de que conseguimos ser igualmente conservadores aos 15 e aos 30.

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timelapse

Dormir, para voltar a acordar, para voltar a dormir, para acordar novamente. Pelo meio, umas horas com sol ou com chuva, a luz a mudar devagar, as pessoas a irem de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Abre a porta, fecha a porta, abre a porta, fecha a porta. Próxima paragem. Sempre assim, sempre assim. Um tédio.

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streetwalk

O primeiro dia de gabardine deveria ser um dia feliz. Mas não é. Porque os neons não deixam, porque a chuva magoa e os passeios é que marcam o compasso, porque os carros não param e porque tudo o resto é um movimento repetido, quase estático. E só tu achas que estás em Nova Iorque.

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more than this

lembro sempre aquela canção do vinicius “onde anda você?”. porque a cidade é demasiado grande. porque as horas são todas de ponta. porque impera o caos no meio da cidade. e a vida perde-se. a nossa vida.

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Já passava da uma da tarde quando o encontrei em frente ao Salão Musical. Enrolava as palavras e mal se tinha de pé. Ainda cantarolámos alguns versos e concordámos na beleza infindável de algumas canções. Generoso, concedeu-me uma sugestão e prometeu ligar durante a semana. Despedimo-nos com um abraço emocionado. Nunca sei se é a última vez que o vejo.

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em mi menor

nota prolongada, lânguida de triste, em que se atravessam as criaturas da cidade e onde caem gotas grossas de água. é uma pressa em câmara lenta, daqui.

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cena do quotidiano

Tanta cidade, tanta urbanidade, e as reuniões de condomínio são feitas nos halls dos prédios. O reflexo da transparência saloia. Chega um homem a casa para isto? Não. Atravessei-me à frente da porta e precipitei-me rua abaixo. Ao fundo ainda ouvi um grito: “Aquele também aqui mora! Agarrem-no!”. Corri até não mais poder. Nunca me apanharão vivo.

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uma campaniça

toca na minha cabeça uma viola campaniça. e desaparece o barulho da cidade. e regressa o sopro nas searas. e a melancolia é, agora, uma coisa que faz respirar. já não quero olhar mais pela janela.

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lembrei-me de ti, hoje. as primeiras manhãs da primavera nunca são bonitas fora das searas. nem sequer existe mais silêncio do que o teu silêncio. a cidade nunca me deslumbrará por isso mesmo. fiquei a pensar em como ainda admiro a tua coragem. é para isso que servem os irmãos mais velhos, para os admirarmos.

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blues funeral

Muddy Waters dizia que o blues era sobre não ter dinheiro e não ter mulher, no sentido de ser abandonado e ficar a uivar ao luar. A dimensão do blues, apesar de sublime, era campesina. Arrastado para cidades grandes, como Chicago, o blues nunca morreu. Ele transformou-se. A sua urbanidade tem a mesma natureza, de inquietação e sofrimento, mas obedece a um conjunto de circunstâncias diferentes, apesar de filosoficamente idênticas. Quando o problema deixa de ser a moeda e o amor e passa a ser a visão egoísta da perda e do abandono, estamos a enterrá-lo com as nossas fragilidades, a manipulá-lo. Mas ninguém quer matar o blues, de forma voluntária e calculada. É por isso que as pessoas vão passear à beira-rio – uma espécie de retorno.

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um companheiro

Caminhar com companhia pela cidade é toda uma outra história. No mesmo ritmo, com a mesma serenidade e a mesma urgência: a ânsia de gostar das coisas como elas estão e contemplá-las por um instante de eternidade. Abstrai-me de tudo o resto – porque me encanta – ver alguém andar pela cidade e gostar dela com a mesma naturalidade. Porém, o ideal é encontrar um equilíbrio. Porque quando dedicamos a atenção a uma coisa, esquecemo-nos da outra.

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a lei da concorrência

convidei-a para dançar no pingo doce, mas ela já o tinha feito no continente.

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amor e ódio

Já não sei quem* é que citava uma frase muito interessante do Solnado no outro dia que dizia algo como isto: “quando saio de Lisboa não tenho saudades, tenho ciúmes” (cito de memória). É uma frase que reflecte muito da relação de posse que estabelecemos com as cidades e que vai gerar a dicotomia entre o amor e o ódio. Umas vezes amo-te, outras odeio-te. Porque és arrogante e te deixas assediar por uma coolness qualquer e já não queres saber de mim, ou de nós. Porque às vezes és fria e distante nos piores momentos e aquilo que me fascina em ti desaparece no instante em que ignoras os meus passos. Lisboa, i love you but you’re bringing me down.

*Afinal já sei quem foi. Foi o Nuno, claro.

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A Time já escolheu a sua personalidade do ano. Por aqui, um júri atento também já escolheu a sua. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos e com virtudes humanistas que se esforça por se harmonizar com o mundo dando a mão à carência alheia. As 5 pessoas que constituem essa organização representam agora uma parte integrante do carácter deste pobre sem-abrigo. E aqui, quando se elege alguém, pensa-se sempre na longevidade do mérito. May nothing but happiness come through their door.

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dead combro

Não me apercebi do tamanho do frio até ela passar por mim com a face rosada e a pele branca quase a desaparecer por entre o cachecol verde e a boina castanha. Era um frio muito grande. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco enquanto voltava a olhar e sorri, porque convém sempre sorrir com as dádivas da invernia. Desci e, de repente, um nevoeiro cerrava toda a colina da frente como se fosse ali decretada a morte da calçada, o fim derradeiro da vertiginosa rua que outrora se estendera até S.Bento. Nunca antes assistira a tal coisa – uma Lisboa londrina para sempre.

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Chuva

O céu vai cair sobre Lisboa. Ouvem-se sirenes e não se avista ninguém na rua. Um homem abriga-se debaixo de um reclame de uma loja de electrodomésticos e fica ali a aguardar. É o único. Os carros circulam com mais receio do que cautela e as ruas são rios violentos. Não pára de chover e a sensação que dá é que o céu vai cair sobre Lisboa.

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restauração

Restaurar é repetir. Talvez não seja assim tão boa ideia procurar a minha restauração. Fiquemos com os espanhóis até ver.

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Olha para as estrelas, pequena, que não há mais metafísica que essa. Esquece a cidade e o governo e deslumbra-te com a luz lá de cima que aquece o cheiro transcendente dos que passam. E mesmo que chova, fecha os olhos e olha para as estrelas.

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Uma das coisas que me fez querer morar em Lisboa foi a sublime música de Júlio Pereira. Em adolescente, acreditava que era possível escrever o sol em todas as suas ruas, navegar pelas sílabas da sua diversidade, gatinhar pelo estuário e acabar estendido nas avenidas estafado de tanto movimento. Vi os turistas e os lisboetas, os migrados e os passantes. Vi a Baixa a escorrer dinheiro e o Chiado a namorar rapazes e raparigas em longas tardes de Verão. Juro que respirei outonos em poucas horas na Av. Berna e no Campo Pequeno, e acredito até ter assistido a um filme neorealista no Cais do Sodré. Houve dias em que acreditei que casaria com a Graça ou que, se me tornasse burguês, cederia aos encantos da Estrela. Passeei involuntário na Sé e desci Alfama porque me pareceu lógico. Embebedei-me de Avenidas. Devo esta minha canção ao Mestre Pereira, a José Cardoso Pires e a horas de documentários estranhos na :2. Mas principalmente ao Mestre Pereira.

*perdoem-me a extrema lamechice aryiana.

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HCB

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