Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘memória’

Houve um tempo em que viajava com o meu pai. Ficávamos em hotéis e jantávamos todos os dias fora. Durante o dia, ele visitava clientes e eu ficava à solta por Lisboa. E lá ia eu, na 5 de Outubro à Av. de Berna, com todo o tempo. Tentava parecer um local: andar cool, lento, despreocupado mas observador. Sonhava, então, em ser qualquer coisa que me permitisse sair do trabalho e sentar-me num bar, com os amigos, a beber um uísque. Sim, quando for grande quero ter o prazer de sair do trabalho, todos os dias, e ir aproveitar a cidade. Ser adulto significava essa liberdade de estética conservadora e melancólica. Ficava fascinado com os bares dos hotéis: as raparigas a fazer conversa com os homens de negócio, de pernas cruzadas, em constante sedução; o fumo lânguido dos cigarros; os copos Old Fashioned a reluzirem. Achava eu que seria assim, com todo o tempo. Mas, depois, um tipo cresce e há compras para fazer e jantar em casa, há o cansaço e as horas extra. A grande ilusão é a de que conseguimos ser igualmente conservadores aos 15 e aos 30.

Read Full Post »

elvis

Às vezes punha-me escondido atrás dos carros a vê-los tocar. Sentava-me, fechava os olhos e sonhava com a América. O finger picking do Mário fazia-me imaginar um longo comboio preto que partia em direcção a um outro mundo. Cresci a vê-los tocar o Mistery Train. Em casa, juntávamo-nos para ouvir os discos do Rei e dançávamos, abanando as pernas, os joelhos a colidir, o pé a bater. Ah! a voz do Elvis a encher-nos de alegria e de intuição. Fomos todos tão novos.

Read Full Post »

monção

“Designação dada aos ventos sazonais, em geral associados à alternância entre a estação das chuvas e a estação seca, que ocorrem em grandes áreas das regiões costeiras tropicais e subtropicais. A palavra tem a sua origem na monção do Oceano Índico e sudeste da Ásia, onde o fenómeno é particularmente intenso. A palavra também é usada como nome da estação climática na qual os ventos sopram de sudoeste na Índia e países próximos e que é caracterizada por chuva intensa. Embora também existam monções em regiões subtropicais, por extensão, a designação de climas de monção ou climas monçónicos (tipo Am na classificação climática de Köppen-Geiger), é utilizada para designar o clima das regiões tropicais onde o regime de pluviosidade, e a consequente alternância entre estações seca e chuvosa, é governado pela monção.”

da wikipedia

Read Full Post »

heroína

de boas recordações está o inferno cheio. recordações doseadas para dentro de uma colher, aquecidas. as boas recordações são uma desculpa para não seguir em frente e, por isso, são um vício injectável. é preciso acabar com a memória.

Read Full Post »

Pergunto-me, muitas vezes, quantas pessoas estarão no meu funeral. Com a sorte que eu tenho e com os amigos dispersos, por aí, as agendas estarão demasiado preenchidas. Já não existirão pais e irmãos e primos, que são os que nos amam incondicionalmente. Aqueles que lá estiverem irão reduzir a minha existência a um conjunto de conquistas vãs, mal amanhadas, e a uma bondade insípida. Gostava que chorassem. Porém, o meu funeral será, também, o meu julgamento. As intenções serão relativzadas – as boas e as más. E quem irá escrever o epitáfio que ficará inscrito na campa para a eternidade? O que dirão de mim que seja mais generoso do que aquilo que eu concebo para mim mesmo? Inquieta-me que façam tudo mal e que eu nem sequer tenha a oportunidade de contradizer.

Read Full Post »

lembrei-me de ti, hoje. as primeiras manhãs da primavera nunca são bonitas fora das searas. nem sequer existe mais silêncio do que o teu silêncio. a cidade nunca me deslumbrará por isso mesmo. fiquei a pensar em como ainda admiro a tua coragem. é para isso que servem os irmãos mais velhos, para os admirarmos.

Read Full Post »

o mercado da memória

Com o cérebro vazio como um parque de estacionamento num filme de suspense, sem um único sinal de movimento, ria enquanto ia repetindo “este gajo, eheheh, que grande maluco”, acompanhando com um paradoxal abanar de cabeça como quem diz não. E repetia isto ao mesmo tempo que na rádio, na voz do locutor, sobressaía a expressão “grande maluco” com a emoção de uma marta depois do almoço. Gostava daqueles programas de revivalismo. “Eh! esta música… xiiii este shampô…”. Como seria possível alguém lembrar-se de tanta coisa.? Nunca tinha pensado na memória nem no que ela lhe trazia. Mas, ali, no meio do trãnsito, distraía-se enquanto os outros se lembravam por ele. Isto é que é entretenimento! É mesmo disto que precisamos: gente bem disposta que nos ofereça uma memória standard a preço imbatível. Na volta ainda vai ao espectáculo no Tivoli.

Read Full Post »

Older Posts »