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Posts Tagged ‘efeméride’

morning glory

Acordei cedo, com a cabeça ainda a balançar, na dança do equilíbrio. Não comi nada e saí. Visitei uns amigos na Rua da Prata e encontrei-me, já pela hora do almoço, com uma família que eu próprio escolhi, de certo modo. Depois do almoço, a cabeça continuava a latejar e, então, decidi voltar a casa. Estendi-me no sofá e coloquei um western do Sam Fuller. Decidi não jantar. Ainda ouvi dois discos, mas estava uma canção latente na minha nuca. Não sabendo bem porquê, procurei ouvi-la. Foi então que percebi que estava na altura de celebrar o rapaz que ficou lá para trás, numa manhã gloriosa, sem rugas. Nunca alguém disse que ia ser fácil. Agora, que a noite caiu, mais cedo que nos outros dias, estou aqui sentado a manifestar a vontade de acordar.

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100 cages

não há intimidade nos cantos. porque a intimidade é um som redondo, envolvente. és íntimo da intimidade e do passeio público. dominas o silêncio para libertar o ruído. não há nada nos teus dedos que não seja uma frase respirada na rua. e dentro de casa, a celebração da solidão, a festa dos fantasmas e dos amigos imaginários. está a chover lá fora. não sei as horas. mas ainda há luz.

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Muitos recordam Lorca pela sua personalidade política. Outros tantos lembram a sua aficción e tudo o que deu à cultura dos toiros. Porém, Lorca, mais do que um homem foi um grande poeta, que é o que lhe vale a imortalidade. Federico escrevia com tudo o que os seus olhos alcançavam: desde a grande planície andaluza, até à vida que escorre pelo asfalto de Nova Iorque. Sonhou com o mundo tal como o via, e não como gostaria que ele fosse, e sobre ele escreveu lentas valsas de amor trágico. Querido Federico, queria dizer-te que estás sempre por perto.

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elvis

Às vezes punha-me escondido atrás dos carros a vê-los tocar. Sentava-me, fechava os olhos e sonhava com a América. O finger picking do Mário fazia-me imaginar um longo comboio preto que partia em direcção a um outro mundo. Cresci a vê-los tocar o Mistery Train. Em casa, juntávamo-nos para ouvir os discos do Rei e dançávamos, abanando as pernas, os joelhos a colidir, o pé a bater. Ah! a voz do Elvis a encher-nos de alegria e de intuição. Fomos todos tão novos.

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john

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gino é morto

Eu pensava sempre na Segurança Social. Pensa-se sempre. Olhem para este nome: “segurança social”. Como não pensar? Ele cagou. Nem queria saber. Andámos às voltas de umas cassestes antigas à procura de um vídeo que significava um momento intelectual de uns tipos que, ao que parece, segundo a melhor doutrina, era malta despretensiosa. Pois claro! Dois ou três brandis fodidos, talvez quatro ou cinco, e saímos porta fora a toda a velocidade na violência da novidade. Sempre novo, o mundo dele, muito mais novo do que o meu e que nem vinte e poucos anos de diferença impediam. Ela ficava-se pelo gordon’s tónico e divertia-se com a nossa abstinência de realidade. Saltámos intercaladamente as passadeiras de toda a cidade. Foram bons dias, quando regressava de Lisboa e as histórias de passado cósmico se fundiam com o imaginário presente como se a noite fosse uma só, porque é, nas suas linhas rectas embriagadas e o Porto uma história só sua, da Fonte Taurina que corta a Ribeira num golpe necessário para conter a perdição ao cheiro nauseabundo do Cubo às cinco da manhã, por las cinco de la mañana, quando ninguém acerta o passo e só se acerta o passo a alguém. Ah! e isso é tão violento e belo e reformador que só dá vontade de voltar a casa para ouvir o calor íngreme da Camões, num poema bukowskiano que eu só li depois. Mas, voltemos à terra e ao brandi, ao dominó e às ganzas de rua provocadas pela decadência ancestral da confortável revolução geracional e aos interlocutores loucos bem mais dados a retóricas das duas da manhã. Sempre a madrugada a foder as contas. Foi aí que desenhámos a grande estratégia, o plano de fuga, e voltámos à cidade para revolver a modernidade de brandi na mão, e depois de gin e depois de vodka tónica que fez acelerar o cadáver que saiu a toda a velocidade sozinho de uma periferia que pretendia arrastar a cidade, mas que só o arrastou, a ele, noites a fio em linha recta. E numa dessas noites lá foi ele com a vida na ponta dos olhos, mas ao contrário, para dentro, mostrar o som festivo que estava prestes a explodir, pouco pretensioso, dizem, na vã glória da sua eterna juventude, com tudo o que isso implica, mesmo que seja o snobismo dos The The ou o proselitismo dos Dexy’s Midnight Runners que passava religiosamente na sequência de uma Russian Roulette ou de um inevitável One Step Beyond. Talvez o Laurent Garnier ou o Timo Maas surgissem mais tarde na reviravolta do século e os Groove Armada subissem ao pódio da loucura patrocinados por um qualquer bestie boy em sabotagem perfeita de uma das melhores bandas sonoras do senhor Lynch. Ali estava ele de piça virada aos céus, qual Plexus, encostado ao balcão onde garantia “bem… tenho de me ir embora, pá… foda-se, caralhetes…” e a estrada é um’stantinho, a toda a velocidade porque nestas coisas não se pára, ainda que com uma stolis no bucho, irresponsável dum cabrão que nunca descontou na vida e lá partiu em direcção ao tempo da Boavista (outro tempo que já lá foi). Este é o dia, este é o dia! Amanhã logo se vê. E foi, para nós, quando na vertigem da estrada novinha em folha chegou perto dos 180 e roçou a faixa lateral sonora – um, dois, três avisos depois – e voou como um Ícaro inconsciente cujas asas incendeiam rapidamente pela berma. No 3/4 do Douro, ali onde o eucalipto perfuma a Nossa Senhora de verde-tinto e presunto rasca, ecoou a voz do Salto. E eu que ia sentado, a caminho, ouvi do outro lado do auscultador uma voz medíocre que quis, enfim, dizer “this was the day his life did surely change”. Deixou umas malas de discos e uma magnífica colecção de pornografia.

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75 anos

O que me distingue de Pessoa é que, a mim, mais de 100 mil pessoas já me leram e ninguém me reconheceu génio e a ele menos de 100 mil o leram e para lá do milhão lhe reconhece o génio.

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