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Posts Tagged ‘contos da preguiça’

Antes do despertador tocar, já eu estou sem vontade de acordar. Nunca precisei de esperar que ele tocasse para chegar a esta conclusão. Não sou nenhum deslumbrado. Às vezes, mesmo antes de me deitar, tenho já a certeza de que não me apetecerá levantar. Não sou desses que só se lembram de como é bom estar na cama no momento de acordar, desses que mal acordam só pensam em  tomar café para ficarem despertos. Eu, mal acordo, só penso em voltar ao sono. Sou de uma preguiça pura, genuína, autêntica; de uma dessas preguiças opiárias e lânguidas. Sem culpa, nem remorso.

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Devia ser proibido por lei bater à porta das pessoas depois das nove e meia da noite. Quando soou a campainha (passariam poucos minutos das dez horas), eu estava já de pijama e robe, decidido a iniciar uma leitura recomendada por um colega do serviço muito entendido na história da política do final do século XIX.
– Boa noite, vizinho. Queira desculpar a hora…
– Boa noite. Passa-se alguma coisa? –  respondi num tom surpreendido, encenado.
Ramalho, o meu vizinho do 2ºesquerdo, era um tipo simpático, educado e silencioso. Nunca tive de chamar a polícia para o fazer entender o bem-estar alheio. Daí que, parte da minha surpresa, era genuína. Estava ensopado e visivelmente constrangido. Apressou-se a justificar o descaramento:
– Eu peço imensa desculpa, vizinho, mas não fosse o sucedido ter contornos de tragédia e nunca o viria incomodar. Hoje, saí um pouco mais tarde do trabalho. Talvez por isso, tive de estacionar o carro num sítio pouco habitual, já no fim da rua. Ali, ao pé do antigo edifício do colégio…
Continuou a explicar o evento, mas eu já estava a ver o filme todo. Foi como se o deixasse de ouvir. Porque lhe caiu uma pedra do tamanho de um meteorito em cima da viatura, e agora não conseguia tirar dali o carro, porque mais não sei o quê, e vai de pensar que seria uma excelente ideia bater-me à porta, a mim, que para além de ter cara de Santa Casa da Misericórdia, ainda lhe devo ter parecido um Hércules. Eu, de pijama e robe, às nove e meia da noite…
Um dilema infernal apoderou-se de mim. Por um lado, queria escapar da obrigação de o ajudar, enquanto bom vizinho, a resolver o seu problema, prestando-me a um papel solidário que tanta falta faz nesta sociedade toda estraçalhada pelo egoísmo e pela corrupção da moralidade. Por outro lado, choviam facas de mato, lá fora; o vento batia nos beirais dos prédios e assobiava como uma alma penada em sofrimento eterno; a chaleira guinchava com a água a escaldar. Senti o corpo tremer, como um arrepio de febre repentina. Os joelhos amoleceram, quentes, e os olhos começaram a arder de sono, como se o pedido de auxílio tivesse feito despertar Morfeu dentro do meu espírito já pouco motivado, de si. Estava, espiritualmente, de pijama.
– Ó sr. Ramalho, eu gostaria tanto de o ajudar! Por infelicidade, a minha hérnia hoje deixou-me num estado tal, que julgo nem conseguir levantar um copo. Mas, talvez eu possa ajudar… Não sei… Quer que ligue para os bombeiros?
– Já liguei três vezes. Parece que há uma inundação muito grande na avenida e que está tudo para lá destacado. Que não podem fazer nada, que já se arrebentaram mais de cinco condutas e que o veterinário já teve de evacuar o consultório. A confusão é tal, que na rua de baixo, uma senhora ligou para a polícia a dizer que devia ter acontecido alguma coisa no Jardim Zoológico, veja lá. O que é que eu hei-de fazer à minha vida?
Não tinha resposta para isto. Nunca tive.
Fiquei ali, a tentar acabar com a conversa para não me sentir cada vez mais obrigado. Ensaiei um ligeiro bluff que acabou por ter um resultado muito positivo para as minhas pretensões:
– Deixe-se estar, homem. Não vai piorar o seu estado só para me ajudar. Nem pensar! Vou tentar pedir ajuda ao Teixeira, que a esta hora já deve ter chegado da barbearia. Não que ele consiga fazer grande coisa só com um braço, mas… Sempre é alguma coisa.
Despediu-se, agradeceu muito a minha atenção e desceu as escadas.
Voltei para dentro e, com esta conversa toda, a água já estava morna. Voltei a aquecê-la e subi a um banco para ir buscar o bule, no topo do armário da cozinha. A minha irmã já me havia alertado para aquele banco. Todas as terças-feiras, quando cá vem para levar a roupa, deixa sempre dois ou três recados logísticos muito pertinentes. Como raramente uso aquele banco, não liguei.
Estendido no chão da cozinha, pus-me a pensar em Ramalho, deitado na sua cama, ferrado no sono, depois do dia atribulado. Ainda ouvi, ao longe, duas ou três sirenes e olhei para o telefone, no corredor, já sem convicção. Ao fundo, a porta, como o fim do túnel, silenciosa, imóvel. Àquela hora ninguém tocaria, certamente.

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